quinta-feira, 25 de março de 2021

GRAMA: UM MANHWA QUE TODO MUNDO DEVERIA LER


Grama é um manhwa (história em quadrinhos coreana) produzida pela sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim e publicada no Brasil, em 2020, pela Pipoca & Nanquim. Grama é um quadrinho que todos deveriam ler. Ele fala sobre a história dramática das mulheres que foram vitimadas pelo sistema de comfort women (mulheres de conforto), criado pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Este episódio é pouco conhecido, mas muito representativo, pois expõe mazelas da sociedade patriarcal que ainda permanecem e que precisam ser combatidas. Fala sobre a escravidão sexual, que vitimou centenas de milhares de mulheres e que ainda está presente nos dias de hoje.

Comfort women é um termo utilizado para designar as mulheres que, durante a Segunda Guerra Mundial, foram forçadas à escravidão sexual em bordéis criados pelo exército japonês. Esse sistema de exploração sexual baseado na criação de “estações ou casas de conforto” vitimou centenas de milhares de mulheres que ainda aguardam a reparação pelos danos físicos e psicológicos deixados pela experiência.

O sistema de comfort women teve origem na prática institucionalizada pelo Estado japonês de enviar mulheres jovens ao estrangeiro como escravas sexuais. País profundamente patriarcal, o Japão tratava as mulheres como uma mercadoria. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão impôs essa realidade às suas colônias, criando o sistema de comfort women para atender às necessidades de seus soldados. 

Foram criadas cerca de 400 “estações de conforto”, espalhadas pela China, Filipinas, Taiwan, Cingapura, Indonésia, Birmânia, Tailândia e Vietnã, sempre próximas às bases militares. Estima-se que cerca de 80 a 200 mil mulheres foram forçadas a prestar serviços sexuais a soldados japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, sendo que apenas 30% delas sobreviveram. O maior número de mulheres era de origem coreana, cerca de 80% delas.[1]

Grama nos coloca dentro das memórias de uma das sobreviventes, a vovó Ok-sun Lee. É, portanto, é um quadrinho biográfico e, ao mesmo tempo, uma reportagem em quadrinhos ou jornalismo em quadrinhos que dá voz àquelas mulheres que foram esquecidas ou silenciadas pela história.

 

Em respeito às vítimas e suas famílias, Keum Suk Gendry-Kim teve especial cuidado com as cenas que envolviam violência. Segundo autora, por ser mulher, consegue se colocar melhor no lugar das sobreviventes e sensibilizar com sua dor de uma forma que um homem não conseguiria. “Precisamente por ser mulher, provavelmente estou melhor posicionada, em relação aos artistas masculinos, para compreendê-las. Prestei atenção especialmente às cenas de estupro para não mostrá-las diretamente nas imagens.”[2]  

Ao contrário da Alemanha, que, após a Segunda Guerra Mundial, assumiu a responsabilidade pelos crimes cometidos contra a humanidade, o Japão não apenas negou a existência das “estações de conforto” como também destruiu provas da sua existência. Além disso, o sistema não foi encerrado após a guerra. Durante a ocupação estadunidense, ele continuou funcionando, atendendo agora aos soldados dos Estados Unidos. Estima-se que, após a guerra, cerca de 70.000 mulheres foram escravizadas para atender a 350.000 soldados durante a ocupação do Japão.[3]

A busca pelo reconhecimento dos crimes e por reparação tem sido a luta das sobreviventes e suas famílias desde a década de 1990, quando surgiram as primeiras denúncias.  A sociedade mobilizou-se, tanto na Coreia quanto em outros países, nos quais as mulheres também foram vítimas da escravidão sexual durante e depois da Segunda Guerra, incluindo o próprio Japão. “Grama” e outras obras que abordam o tema cumprem o papel de reivindicar esse “dever de memória” e ser o lugar de fala dessas mulheres que, por quase 50 anos, permaneceram resignadas e silenciadas em seus sofrimentos, mas que agora estão tendo-os registrados nos anais da história.

A luta das comfort women tornou-se a luta de todas as mulheres contra a exploração sexual e o machismo, que as sufocam e oprimem em todo mundo, não apenas no Leste Asiático. “Grama” fala com essas mulheres a partir da linguagem universal da justiça, da reivindicação de uma memória, mesmo que dolorosa, dando nome e identidade a mulheres que foram por décadas silenciadas.

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Bibliografia consultada:

[1] OKAMOTO, Julia Yuri. As “mulheres de conforto” da Guerra do Pacífico. Revista de Iniciação Científica em Relações Internacionais, João Pessoa, v. 1, n. 1, 2013. p. 92-93. Disponível em: <https://periodicos.ufpb.br/index.php/ricri/article/view/17698/10136>. Acesso em: 12 out. 2020.

 [2] NOGUEIRA, Natania Aparecida da Silva. Entretien avec l'artiste de bande dessinée. Entrevista com Keum Suk Gendry-Kim. Mensagem recebida por: <natania.nogueira2010@gmail.com> em 30 set. 2020.

[3] RAYMOND, Janice. 70 anos depois, um novo sistema de “mulheres de conforto”. Medium. Feminismo com classe. Disponível em: < https://cutt.ly/ngk6PKO >. Acesso em: 28 set. 2020.

 

 


Um comentário:

Unknown disse...

Sim,pfvr achei interessante