sexta-feira, 10 de agosto de 2007

As histórias em quadrinhos no contexto escolar e acadêmico

O texto que segue é parte do artigo "O papel do gibi no processo de apredizagem, na afetividade e nas emoções", de autoria do psicólogo, fundador e coordenador da Gibiteca UCDB, Ronilço Cruz de Oliveira (reproduzido com autorização do autor). Trata-se de parte de um relatório de pesquisa que teve como objetivo analisar qual o espaço que as HQs ocupam no processo de aprendizagem, afetividade e emoções da criança.


As histórias em quadrinhos no contexto escolar e acadêmico

Várias pessoas não entenderam no inicio como os gibis iriam fazer parte de instrumento de pesquisa, investigação e atuação em psicologia em uma universidade, principalmente devido ao grande preconceito que até então existia em relação a esse tema. Waldomiro Vergueiro (Núcleo de Pesquisas de Histórias em quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 1998) afirma que "Quadrinhos e Universidade realmente nem sempre fizeram uma dupla lá muito dinâmica". Waldomiro comenta que os intelectuais universitários até pouco atrás tinham a tendência de "amarrar" o nariz para os produtos da indústria de massa. Custaram a aceitar meios de comunicação de impacto mundial incontestável, como o cinema ou o rádio, demorando para acreditar que eles pudessem apresentar um objeto de estudo digno para os bancos acadêmicos ou que pudessem oferecer como resultado verdadeiras obras de arte.

A ciência, em conseqüência a universidade, tem que se ocupar apenas com coisas importantes e que levem a pensamentos profundos, diziam os intelectuais (e muitos ainda dizem). "Gibi"? Isso é coisa de criança. É totalmente supérfluo, que se lê e joga fora. Como se pode dar valor para algo que é produzido aos milhares, em "papel vagabundo", cheio de desenhos de gosto inacreditáveis, de personagens que usam roupas espalhafatosas? Até pode representar um produto interessante para os outros, mas... enfim, história em quadrinhos não é coisa séria", afirma Vergueiro (1998, Pag. 78). E com isso colocavam um ponto final no assunto. As historias em quadrinhos, definitivamente, não pertenciam ao ambiente universitário.

Felizmente isso mudou um pouco, afirma Vergueiro, porém, nem todo o ranço acadêmico foi eliminado, é claro, mas já é mais fácil encontrar-se, nas universidades do mundo inteiro, professores interessados nas histórias em quadrinhos, que realizam e orientam pesquisas, ministram disciplinas sobre elas e realizam um contato muito frutífero com produtores e consumidores desse meio de comunicação de massa, ajudando a ampliar a compreensão sobre as particularidades e potencialidades do meio.

Este movimento de absorção das histórias em quadrinhos pelo ambiente acadêmico começou em fins da década de 60 e início da de 70, quando alguns interessaram-se pelo assunto e passaram a abordá-lo sob o ponto de vista semiológico, histórico, estético, etc. A partir daí, as historias em quadrinhos passaram a ser um pouco melhor vista pelos acadêmicos.

Segundo Waldomiro Vergueiro o Brasil de uma certa forma, foi pioneiro nesse aspecto, pois foi aqui que mais precisamente na Universidade de Brasília, que foi criada a primeira disciplina sobre Histórias em Quadrinhos em um curso de graduação, ministrada pelo professor Francisco Araújo, que até hoje continua trabalhar com esse assunto em curso de terceiro grau. Foi no Brasil também, que uma das primeiras pesquisas sobre quadrinhos foi realizada em ambiente universitário, coordenada pelo professor José Marques de Melo, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Foi nessa mesma escola, ligada ao Núcleo de Pesquisas em Histórias em quadrinhos, que surgiu mais de 20 anos depois, o primeiro curso de Especialização em Quadrinhos, durante a década de 90 (que infelizmente, deve curta duração).

A universidade pode representar um ambiente privilegiado para a criação de quadrinhos, principalmente poder trabalhar com aspectos de vida do povo brasileiro, podendo promover uma ampla avaliação do pensamento, expressar sentimento e principalmente sendo válvula de escape para a criatividade e emoções dos alunos desta universidade.



Para ler todo o artigo, e aproveitar para conhecer o trabalho feito pela Gibiteca UCDB é só ir em http://www.ucdb.br/gibiteca/experiencia.php


2 comentários:

luis disse...

Ótimo artigo

As produções de histórias em quadrinhos são sim muito ricas. Acredito que sejam um espaço de simulção, incentivo e também um espaço para juntar tudo que se aprendeu e colocar em um contexto, misturar a criatividade com os temas trabalhados, com a emoção. Isso podemos dizer que é dar vida aos personagens. Trabalho como coordenador de Informática Educativa e aqui na escola começamos a perceber a potencialidade dos quadrinhos após algumas construções feitas. Porém percebemos que, podiamos usar de várias formas essa ferramenta (hoje também conhecida como linguagem), iniciamos com reproduções de histórias. E percebiamos que nossa alunos era muito preso, não conseguia se libertar nem para a construção de um cenário, e fomos trabalhando incentivando. Alguns professores como o de matemática e o de português perceberam algumas potencialidades e passaram a utilizar os Hqs em sua prática. Atualmente percebemos que os alunos tem uma capacidade muito maior de criar a história, dar um sentido para ela, e principalmente, é possivel notar que o aluno consegue soltar mais a sua criatividade.

Natania Nogueira disse...

Sim, trabalhar com quadrinhos ajuda a romper com muitas barreiras e facilita a introdução de muitos conteúdos escolares Esta semana ainda estou para colher alguns relatos de outro professores da nossa escola que estão usando a gibiteca como apoio para duas aulas.