terça-feira, 19 de maio de 2009

Quadrinhos na escola, sim, mas com responsabilidade

Vamos direto ao ponto crucial: todo livro é bom? Não, alguns livros decididamente foram editados muito mais pela vontade de seus autores do que pela qualidade de seu conteúdo. O mesmo se pode dizer dos quadrinhos. Eu sou defensora dos quadrinhos, claro, mas há quadrinhos e quadrinhos. Deve existir um critério mínimo para se escolher o tipo de quadrinho que se leva para uma sala de aula, ou mesmo para dentro de casa.

Na gibiteca temos alguns quadrinhos que são mais "fortes" que outros (com cenas mais violentas, abordagens mais adultas e até mesmo alguns palavrões, embora tenhamos uma política contra quadrinhos eróticos dentro da escola), mas eles estão colocados estrategicamente em prateleiras mais altas e são liberados para alunos mais velhos (temos alunos de até 70 anos na escola). Pra tudo tem que haver critério.

Esta é uma das razões pelas quais pedimos sempre aos nossos professores que leiam antes de levar para seus alunos lerem. O que não se pode aceitar é que um organismo ligado à educação e ao poder público utilize um material inadequado e, ainda mais, distribui-lo nas escolas. Usar quadrinhos na sala de aula tem sido uma noviddade e muitos estão aderindo até mesmo por modismo. Mas nunca, nunca devemos esquecer que deve haver critério. O caso de São Paulo deve servir de exemplo, um infeliz exemplo de ingerência.
Gostaria de deixar bem claro, que não estou criticando o trabalho dos cartunistas. Ele é bom, não resta dúvida , mas destinado a outro público. O quadrinhista escreve uma obra para determinada faixa etária. Se ocasionalmente ela cai nas mais de crianças fora desta faixa é um acidente, se uma Secretaria de Educação compra e distribui aleatoriamente, é incompetência. Talvez fosse o caso de se instalar projetos de leitura dentro das secretarias de educação, pois, como um dos cartunistas afirmou: "Quem escolheu não leu o livro". Ora, se os técnicos da educação não estão lendo, como exisgir que alunos e professores leiam?


SP distribui a escolas livro com palavrões

Com termos impróprios e conotação sexual, obra seria utilizada por estudantes da rede estadual na faixa de nove anos Governo de SP disse que houve falha na escolha do livro para o programa Ler e Escrever e que determinou o recolhimento das obras

FÁBIO TAKAHASHIDA

Secretaria Estadual da Educação de São Paulo distribuiu a escolas um livro com conteúdo sexual e palavrões, para ser usado como material de apoio por alunos da terceira série do ensino fundamental (faixa etária de nove anos).A gestão José Serra (PSDB) afirmou ontem que houve "falha" na escolha, pois o material é "inadequado para alunos desta idade", e que já determinou o recolhimento da obra.O livro ("Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol") é recheado com expressões como "chupa rola", "cu" e "chupava ela todinha".

São 11 histórias em quadrinhos, feitas por diferentes artistas, que abordam temas relacionados a futebol -algumas usam também conotação sexual. A editora Via Lettera afirma que a obra é voltada a adultos e adolescentes.A pasta distribuiu 1.216 exemplares, que seriam usados como material de apoio para a alfabetização dos estudantes, dentro do programa Ler e Escrever (uma das bandeiras do governo na educação).

Nesse programa, os estudantes podem usar o material na biblioteca, na aula ou levar para casa. O livro começou a ser entregue na semana passada.É o segundo caso neste ano de problemas no material enviado às escolas. A Folha revelou em março que alunos da sexta série receberam livro em que o Paraguai aparecia duas vezes no mapa.

"Os erros revelam um descuido do governo na preparação e escolha dos materiais", afirmou a coordenadora do curso de pedagogia da Unicamp, Angela Soligo."Há um constante ataque do governo contra os professores e a formação deles. Mas o governo coloca à disposição dos docentes ferramentas frágeis de trabalho", disse Soligo.

Posição oficial

A reportagem solicitou entrevista com o secretário da Educação, Paulo Renato Souza. A pasta, porém, só divulgou uma nota, que não esclarece como é feita a escolha dos livros.Sobre a responsabilidade pelo erro, disse apenas que abriu uma sindicância.O governo afirma que "este livro é apenas um dos 818 títulos" comprados e que os 1.216 exemplares da obra representam "0,067% do 1,79 milhão de livros colocados à disposição das crianças". Diz ainda que faz um grande esforço para estimular o hábito da leitura.

O gerente de marketing da editora Via Lettera (responsável pelo livro), Roberto Gobatto, afirmou que apenas atendeu ao pedido de compra (no valor de cerca de R$ 35 mil) feito em novembro, na gestão de Maria Helena Guimarães de Castro na pasta da Educação."Não sabíamos para qual faixa etária seria destinada. Se soubéssemos, avisaríamos a secretaria", disse Gobatto.Na história mais criticada por professores que tiveram contato com a obra, o cartunista Caco Galhardo faz uma caricatura de um programa de mesa-redonda de futebol na TV.Enquanto o comentarista faz perguntas sobre sexo, jogadores e treinadores respondem com clichês de programas esportivos, como "o atleta tem de se adaptar a qualquer posição".Quem escolheu não leu o livro, diz cartunista

DA REPORTAGEM LOCAL
O cartunista Caco Galhardo, autor da história mais criticada do livro por professores, disse que a obra não era destinada a alunos. Caco é quadrinista da Folha. (FT)

FOLHA - A sua história era para crianças de nove anos?
CACO GALHARDO - Imagina. É uma HQ [história em quadrinhos] justamente para não ir para escola. Há um movimento de se colocar quadrinhos nas aulas, porque é uma linguagem acessível para a molecada. Fiz uma adaptação do Dom Quixote que foi para várias escolas. Mas os caras têm de ter critério para ver qual quadrinho colocar. Nessa eu tirei sarro de uma mesa-redonda.
FOLHA - Sabe como foi parar nas escolas?
GALHARDO - O cara que escolheu não leu o livro.
Sindicância vai apurar quem escolheu obra

DA REPORTAGEM LOCAL
O governo José Serra (PSDB) admitiu que errou ao distribuir a publicação, mas apontou que a obra é só uma das 818 escolhidas. Abaixo, leia a íntegra da nota divulgada pela Secretaria da Educação.

"A Secretaria de Estado da Educação determinou ainda na semana passada (dia 15) o recolhimento imediato da publicação "Dez na área, um na banheira e ninguém no gol". É importante esclarecer que o livro é apenas um dos 818 títulos, comprados de 80 editoras, para apoiar o programa Ler e Escrever, voltado a reforçar a alfabetização de crianças.Apenas 1.216 exemplares do título foram efetivamente distribuídos às escolas, o que significa 0,067% do 1,79 milhão de livros colocados à disposição das crianças como material de apoio nas salas de aula. O governo faz grande esforço para estimular o hábito da leitura pelas crianças, pois isso favorece muito o aprendizado.

O livro citado seria utilizado por alunos da terceira série, mas sua escolha foi um erro, pois o material é inadequado para alunos dessa idade. A falha foi apontada pelos coordenadores pedagógicos do programa Ler e Escrever tão pronto receberam os primeiros exemplares do livro na semana passada.A Secretaria da Educação instaurou uma sindicância para apurar as responsabilidades pelo processo de seleção dos livros, que tem prazo de 30 dias para ser concluída."

2 comentários:

Marcos Alexandre disse...

De forma preconceituosa, "profissionais da Educação" compraram a obra e a indicaram, sem ao menos, lê-la ! Acharam que "gibi" é coisa de criança... Quem pensa assim nunca leu "V de Vingança", "Persépolis", "Maus", "Watchmen"... Sou leitor de HQs há mais de 30 anos... Há 20, recebi em doação mais de duas mil HQs da Editora Abril... Li todos e distribuí as que julguei adequadas às crianças da minha cidade... Há 10 anos, coordenei projeto no "Escola da Família", preparando alunos para vestibular e concursos públicos e obtive resultados excelentes: os alunos relacionavam Macunaíma (o herói brasileiro) com Superman (o herói americano), O Médico e o Monstro com o Incrível Hulk e Maria Quitéria com a Mulher-Maravilha... Assumo: devo muito de minha cultura geral às HQs... Passei em concursos, vestibulares e até mesmo na Fuvest – fui estudar na USP- com ajuda das HQs. Atuo como jornalista e escritor há 20 anos e utilizo muitas técnicas narrativas que aprendi nas HQs. Autores: solidariedade...

Natania Nogueira disse...

É uma situação realmente lamentável e vergonhosa, tanto para a a educação quanto para o próprio governo.